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quarta-feira, 25 de março de 2009

Os desastres de Sofia


Em 1931 Vieira da Silva oferece a Violante Canto da Maya (então com oito anos) o livro da Condessa de Ségur Les malheurs de Sophie (Os desastres de Sofia) substituindo as ilustrações de A. Pécoud por imagens por si criadas, recortadas e coladas na edição original, retomando o hábito que tinha em criança de cobrir a aguarela as gravuras que ilustravam os livros.
Lembram-se deste livro?A história da abelha que Sofia corta com o seu canivete de madrepérola...

sábado, 30 de agosto de 2008

O lado de Guermantes


"O conde de Argencourt encarregado dos negócios da Bélgica e primo afastado por afinidade da senhora de Villeparisis, entrou a coxear, logo seguido de dois jovens, o barão de Guermantes e S. A.o duque de Châtellerault, a quem a senhora de Guermantes disse: "Olá menino Châtellerault" com ar distraído e sem se mexer do seu pufe, porque era uma grande amiga da mãe do jovem duque, que, por causa disso e desde criança, tinha grande respeito por ela. Altos, esguios, de pele e cabelo dourados, inteiramente do tipo Guermantes, aqueles dois rapazes pareciam uma condensação de luz primaveril e vesperal que inundava o grande salão."

Proust, Marcel
Em busca do tempo perdido, vol III
Relógio d'Água

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

O Livro do Meio

O país dos interditos convive mal com movimentos de câmara lenta. O rumor surdo da perplexidade traduz as reticências de regra. Afinal, o que é que leva dois autores consagrados, Armando Silva Carvalho e Maria Velho da Costa, nascidos ambos em 1938, à desabusada escavação da infância? Por que é que, sem perder Laclos de vista, foram ambos induzidos à narrativa da intriga? Valmont e a Merteuil trocaram o castelo de Madame de Rosemond pelo British Quintal? (O British Quintal é o jardim da casa de Maria Velho da Costa.) Pergunta ela: «E que fizemos à Merteuil e ao Visconde? / Devem ter-se tolhido com a tua abominação da aristocracia, a querela de classes, o Terror.» A questão não é inocente. E o protocolo não engana: nos interstícios do passado insinua-se a prova do quotidiano. Leitura do mundo: obras, autores, prémios, família, castas, ódios, equívocos, querela, política, dinheiro. O Meio à lupa, sem licença, entre 4 de Fevereiro e 29 de Junho do ano em curso. Tão simples como isto. Romance epistolar? Ou romance realista? Ele: «Ensaiemos, pois, em silêncio, o percurso do nosso dueto, a ouvir o Scarlatti.» Ela: «Há anos que me despeço da Literatura. Perdi o impulso, receio o tumulto.» Ele vem da pequena burguesia rural, do tempo em que todos se roçavam para chegar a Rousseau, mas, ainda rapaz, tinha ou julgou ter «outras Luzes guias, outros holofotes virados para as bandas do colectivo.» Valmont também conquistou o seu destino, e há-de ter lido O Contrato Social. Ela vem da burguesia instalada no Ancien Régime, viu mundo, o lusco-fusco do British Quintal ajuda-a a enfrentar o passado: «Os afectos são flutuantes. É o que os torna perigosos. Mesmo no seio da família, ou pior ainda. Quem diria que, depois de amar tão apaixonadamente os meus, poderia ir até à aversão? Que mutila. O ódio mutila.» Pai militar, «bisonho e frugal», mãe amante do luxo: «Perfumes, jóias, sedas, peles, comida requintada. E de dançar e de sair.» Ele a brincar aos padres em Olho Marinho: «O padre foi, aliás, na panóplia de seres que andavam à volta dos meus anos tenríssimos, o meu homem de saias.» Lenta descoberta da sexualidade num tempo em que «o sexo não existia em lado nenhum do corpo que a gente desse por isso.» Ela no Bairro Azul. Ele numa «província abaixo da meia-tigela [...] e não me peca a alma ao dizer que tinha costeleta de porco uma vez por semana após a missa. Outros comeriam feijões, pão duro, e quando.» Nítidas, as origens. A mnemónica deixa cicatrizes. O rapaz veio para a cidade, estudar e fazer pela vida. A rapariga não esqueceu o crivo apertado do Palácio das Madres, feudo das “Grandes”, um dia libertou-se e percebeu: «É toda uma cópia de contrastes, esta vida.» Muita água passou sob as pontes. Estão sentados no British Quintal, fazem parte do Meio, não há como fugir ao Meio, são consequência do Meio. Ela não poupa no desdém: «Há pouca gente tão ignara e arrogante como esses oxfordinhos de segunda. Cheios de mofo daqueles departamentos que fenecem, daqueles parques infantis para adultos, que consentem, salvo raras excepções entrincheiradas na excentricidade, dar diplomas a medíocres que seriam, na Sorbonne ou no MIT, mandados de volta à instrução primária.» Ele, sem sair da mesma área sociológica, tem o seu quinhão. Uma afirmação de Maria Filomena Mónica [«As relações entre uma patroa, especialmente de esquerda, e uma empregada doméstica são complexas.»] dá o mote: «Frase tão incrível como os anúncios de sexo regressivo [...] que descobres na nossa circunspecta imprensa.» Exemplo entre muitos. Isento de vénia ou cálculo, paralelo ao enredo da infância, o fio dos dias flui com naturalidade: escritores, artistas, cinema, jornais, colunistas, televisão, amigos, passeios, humor, tudo é pretexto. Pode ser o brutal assassinato de Gisberta: «Em Finsbury Park [...] vi uma vez duas pegas, lustrosas de branco e preto, a despedaçarem no chão um pombo ainda vivo. Quis ao menos enxotá-las e acabar de o matar. Foi-me dito que elas gostam de levar carne viva para o ninho. Lembrei-me muito deste episódio, a propósito do caso Gisberta, o transsexual assassinado por garotos no Porto.» Pode ser um dos legítimos inferiores, dando azo a comentários e trocadilhos. O homem é o estilo: «os tiques que se tornaram famosos e vendidos por esse mundo fora, traduzidos, sei lá, em judaico, alemão, grego ou paquistanês. Não é tanto os -inhos do sentimentalóide, esse celulóide da prosa [...] o arfar da sorna suburbana, com Donas Idálias e cantores larilas.» O estilo fixa-se em edições “ne varietur” para pasmo dos indígenas: «pobre A. L. A. que não tem culpa que lhe andem a fazer edições menos avariadas que a cabeça.» A mediocridade não tem perdão. Os melhores são citados com acerto e lembrados com empatia. Casos de Sophia, Sena, Agustina, Cesariny, Fiama, Herberto, Llansol, Drummond, Luiza Neto Jorge, António Ramos Rosa, Álvaro Lapa, Margarida Gil, João César Monteiro, Manoel de Oliveira, Eduardo Lourenço, Nuno Bragança, José Cardoso Pires, Pedro Tamen, Ruy Belo, Manuel Gusmão, poucos mais. As bêtes noires comuns? Bénard da Costa e Vasco Pulido Valente preenchem a quota. Sim, também há uma académica, «a Nossa Académica», oriunda da outra banda: «Veio de barco à conquista de Lisboa. Estudou, estruturou, e de ática a catedrática foi um pulo. Barthesiana enquanto lhe rendeu o discurso, hoje o seu retiro impressiona. É grandiloquente. E quem lhe beija a mão sabe bem como ela morde.» E ainda uma embaixatriz, «a Nossa Embaixatriz», oriunda do Instituto Camões, e uma psicóloga oriunda da coterie de Natália Correia, «a Nossa Psicóloga». Bem como um energúmeno, «o Energúmeno», um dos da pior espécie, «culto, académico, talento multifacetado.» Os menores não têm direito a nome. Os novos não são esquecidos: «A jovem cultura portuguesa é só prodígios.» Certa dose de acrimónia contra os convénios de casta: «Há dias folheei um livrinho cínico e galante, de um menino bem, um pretty boy, a falar da sua adolescência, vivida nos braços das artes e nos deleites do antes, durante e pós-coital. Autor: o inefável Frederico Lourenço, esse tão celebrado tradutor dos velhos gregos. O pai dele, o M. S. Lourenço, um homem requintado das filosofias, amante da palavra, do mito e da pergunta, andou comigo na recruta em Mafra e chamava-me o sapador suicida.» Aferidor do quotidiano, Eduardo Prado Coelho surge amiúde: «Hoje o E. P. C. parece que me adivinhou. E zás: diz que não é toureiro, não senhor, mas dá umas trancadas nessa coisa obnóxia dos papás avaliarem os professores dos seus rebentos. E por sinal até escreve que essas encantadoras crianças tratam as professoras de putas, lhes atiram preservativos à cara e as fecham nas salas de aula.» De passagem, ponto final nas Novas Cartas Portuguesas, despachadas como inócuas: «um hímen colectivo, um coral fêmeo a bufar no macho.» Em todo o caso, o maldizer é mero parêntesis na crónica da infância. Barthes, apropriadamente citado, disse: «a minha infância é que mais me fascina [...] o que descubro nela não é o irreversível, é o irredutível [...] a emoção interna, mas isenta de qualquer expressão pela sua própria desgraça.» É essa a matriz do livro, a que um conjunto de três dezenas de retratos dos autores enquanto crianças acrescenta um suplemento de “realidade”. O que estas imagens nos dizem é que a fotografia não é um corpo neutro na dinâmica da obra. Quem conheça a obra dos co-autores encontra aqui um prolongamento das obsessões de ambos. O Armando Silva Carvalho de Portuguex (romance, 1977) ou de Elena e as Mãos dos Homens (contos, 2003) plasma-se na prosa sacudida desta “correspondência”. O mesmo se diga de Maria Velho da Costa, operando em flashback. Ouvindo-a discorrer sobre o rito de passagem que representou o Palácio das Madres, somos levados a recordar episódios do primeiro livro, Lugar Comum (contos, 1966), ou mesmo daquele Maina Mendes (romance, 1969) que definitivamente a consagrou. No seu desconstruir metódico, O Livro do Meio põe a nu a tensão dialógica que as obras respectivas estabelecem entre si. Uma mais-valia nada despicienda, convenhamos.


A Infância, os Outros, in MIL FOLHAS, 24-11-2006, p. 10.

Jóia de família

Agustina Bessa-Luís volta ao Porto e ao Douro neste novo romance, "Jóia de Família", "uma história sobre a intromissão da delinquência na vida burguesa". (ABL ao JL, 26/6/01)

Rute Clara decide dar à luz o seu terceiro filho na Quinta do Salto, propriedade do tio Albergaria, sabedora de uma cláusula do testamento deste, segundo a qual todos os seus bens se destinariam ao sobrinho que nascesse na casa de família. Mas a criança nasce morta, ou morre ao nascer, e Celsa Adelaide, criada dedicada que assistiu ao parto, decide trocá-la de imediato, e antes que a senhora Rute dê por isso, pelo seu filho que nascera dias antes. Deste modo pouparia a senhora de um grande desgosto e daria ao seu filho uma vida que ele nunca poderia ter. A criança veio a chamar-se António Clara e puseram-lhe a alcunha de Cravo Roxo.

Cravo Roxo tornou-se amigo de Touro Azul, o segundo filho de Celsa, que vivia de expedientes, era correio de droga e frequentava casas de alterne. Cobiçado pelas mulheres, tinha uma relação muito próxima com Vanessa, proprietária de uma dessas casas, e por quem entretanto Cravo Roxo se apaixona,depois de casado com Camila, filha de vinhateiros falidos. Jóia de família é Camila que é a última oportunidade da sua família para fazer "um bom casamento" e sair da ruína.

Um olhar sobre os nossos dias e a nossa civilização, no inconfundível estilo de Agustina, uma sociedade invadida pela delinquência, o crime (há mesmo um incêndio da casa de alterne, certamente inspirado no caso do Mea Culpa, em Amarante), a corrupção, que vieram sustentar o espírito de lucro fácil e dos gastos que os hábitos de consumo criaram.

sábado, 23 de agosto de 2008

Os 40 títulos fundamentais

Os editores do World Literature Today elegeram os quarenta mais importantes livros de 1927 até hoje. Como em qualquer lista, ela pode excluir livros que consideremos fundamentais...uma lista serve apenas para saber como andam as nossas leituras.

1927 - Ao Farol - Virginia Woolf
1928 - Romanceiro Gitano – Federico García Lorca
1928 - The Tower – William Butler Yeats
1929 - O Som e a Fúria – William Faulkner
1931 - The Turning Point (I strofí) – Giorgios Seferiades
1933-47 - Residence on Earth (Residencia en la tierra) – Pablo Neruda
1934-35 - Gente Independente – Halldór Laxness
1935-40 - Requiem (Rekviem) – Anna Akhmatova
1941 - Mãe coragem e seus filhos – Bertolt Brecht
1942 - O Estrangeiro – Albert Camus
1943 - The Four Quartets – T. S. Eliot
1944 - Ficções – Jorge Luis Borges
1945 - “The Day Before Yesterday” (‘Tmol shilshom) – S. Y. Agnon
1948 - O País das Neves – Yasunari Kawabata
1950 - The Labyrinth of Solitude (El laberinto de la soledad) – Octavio Paz
1952 - Waiting for Godot (En attendant Godot) – Samuel Beckett
1952 - Homem Invisível – Ralph Ellison
1952 - O Velho e o Mar – Ernest Hemingway
1952 - In Country Sleep – Dylan Thomas
1953 - The Lost Steps (Los pasos perdidos) – Alejo Carpentier
1956 - Grande sertão: veredas – João Guimarães Rosa
1956-57 - The Cairo Trilogy (Al-Thulathiyya) – Naguib Mahfouz
1957 - Voss – Patrick White
1958 - Things Fall Apart – Chinua Achebe
1958 - The Guide – R. K. Narayan
1959 - O Tambor – Günter Grass
1961 - Uma Casa para o Sr. Biswas – V. S. Naipaul
1961 - Livro do Desassossego – Fernando Pessoa
1962 - The Golden Notebook – Doris Lessing
1962 - Fogo Pálido – Vladimir Nabokov
1962 - A Praça do Diamante – Mercé Rodoreda
1962 - One Day in the Life of Ivan Denisovich (Odin den’ Ivana Denisovicha) – Aleksandr Solzhenitsyn
1964 - Uma Questão Pessoal – Kenzaburo Oe
1966 - Collected Shorter Poems 1927-1957 – W. H. Auden, England
1967 - Cem Anos de Solidão – Gabriel García Márquez
1968 - House Made of Dawn – N. Scott Momaday
1972 - As Cidades Invisíveis – Italo Calvino
1974 - The Conservationist – Nadine Gordimer
1978 - Bells in Winter – Czeslaw Milosz
1987 - Red Sorghum (Hung kao liang) – Mo Yan

domingo, 27 de abril de 2008

Na casa de Julho e Agosto

Andava a esfregar a imensidão do chão da sala que, ao mesmo tempo é enfermaria e capela,...pus-me a tentar decrifar para onde deveria ir.Sentia sempre algumas ruas simétricas de futura estrutura pombalina e compreendi que era por Lisboa que eu devia trocar Antuérpia...habitar a cidade de Lisboa numa pequena casa humilde a Ocidente da Porta de Santa Catarina...a Olissipo onde havia, afinal nomes extraordinários para as minhas gatas - Boa-Hora,Graça, Madragoa...



in:Na casa de Julho e Agosto
Maria Gabriela Llansol
Relógio d'Água

domingo, 20 de abril de 2008

Poesia de João Miguel Fernandes Jorge


A abstracção não precisa de mãe nem pai
nem tão pouco de tão tolo infante

mas o natal de minha mãe é ainda o meu natal
com restos de Beira Alta

ano após ano via surgir figura nova nesse
presépio de vaca burro banda de música

ribeiro com patos farrapos de algodão muito
musgo percorrido por ovelhas e pastores

multidão de gente judaizante estremenha pela
mão de meu pai descendo de montes contando

moedas azenhas movendo água levada pela estrela
de Belém

um galo bate as asas um frade está de acordo
com a nossa circuncisão galinhas debicam milho

de mistura com um porco a que minha avó juntava
sempre um gato para dar sorte era preto

assim íamos todos naquela figuração animada
até ao dia de Reis aí estão

um de joelhos outro em pé
e o rei preto vinha sentado no

camelo. Era o mais bonito.
depois eram filhoses o acordar de prenda no

sapato tudo tão real como o abrir das lojas no dia
de feira

e eu ia ao Sanguinhal visitar a minha prima que
tinha um cavalo debaixo do quarto

subindo de vales descendo de montes
acompanhando a banda do carvalhal com ferrinhos

e roucas trompas o meu Natal é ainda o Natal de
minha mãe com uns restos de canela e Beira Alta.


João Miguel Fernandes Jorge, Actus Tragicus
Lisboa, Editorial Presença, 1979
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